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revista turismo gaúcho / edição 38

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ENTREVISTA

Do sul do Brasil para o norte da França

Flávia de Melo deixou a agência de viagens no Brasil para dedicar-se à hotelaria ao lado do marido na Europa (Foto: Divulgação)

Flávia de Melo deixou a agência de viagens no Brasil para dedicar-se à hotelaria ao lado do marido na Europa (Foto: Divulgação)

A história dela certamente daria um livro. Gaúcha de nascimento, Flávia começou a trabalhar na indústria do turismo com apenas 20 anos, quando abriu uma agência de viagem em Porto Alegre. Os caminhos mais improváveis a levaram a Natal, no Rio Grande do Norte, depois a Portugal, onde conheceu José de Mello, então dono de restaurantes, com que casou-se seis dias depois. Juntos, trabalharam por muitos anos na revitalização de hotéis do grupo Louvre, na França. Treze anos mais tarde, depois de lutas com o idioma que não dominava e outros percalços, ao lado do marido português, Flávia virou dona de dois hotéis no litoral norte francês, na região do Cotentin, e passou a ser conhecida como Madame Mello – ou “Mellô”, como dizem os franceses.

Em viagem de negócios ao Brasil, Flávia falou com Turismo Gaúcho sobre sua história, as transformações do mercado turístico brasileiro e sobre os desafios à frente do Hôtel des Hormes e Hôtel des Isles.

Como você começou no turismo?
Na realidade eu decidi me lançar no turismo porque eu fazia parte de uma família que tinha o controle de uma grande empresa, a JH Santos, e eles eram os meus maiores clientes. Atrás deles tinha muitos fornecedores e eu fornecia bilhetes e viagens a todas as pessoas. E quando eu quis me voltar mais para o turismo, me dei conta de que Porto Alegre não tinha um mercado para exotismo, para coisas diferentes, pra coisas que realmente precisavam de uma certa vontade de querer conhecer o outro lado do mundo. E aí eu decidi que iria receber estrangeiros. e para isso eu tinha que me instalar no Nordeste. Decidi com um amigo abrir uma agência em Natal, e com essa agência eu fazia receptivos, mostrava aos estrangeiros o meu país. Foi quando eu parti para Portugal numa viagem de férias, conheci o José e me casei, e a minha vida deu uma virada.

Como foi o começo como hoteleira?

Foi super duro. Eu e o José fomos recrutados no início como assistentes de direção, numa cadeia de hotéis que hoje se chama Louvre Hotéis, com 350 unidades na França. Eu era responsável pela recepção, mas deveria fazer, no mínimo, entre dez a 15 quartos por dia, além de me ocupar da recepção e do restaurante. O José fazia toda área de gestão de compras, cozinha, e gerenciava toda a parte alimentar. Eu passei dois anos fazendo malas para ir embora, foi muito duro. Mas eu penso que nunca poderia ter chegado onde cheguei se eu tivesse ficado no Brasil. A experiência numa cadeia de hotéis foi uma escola, eu aprendi critérios, regras, gestão. Até hoje ainda trabalhamos com as mesmas regras rigorosas pra fazer o negócio dar certo. O rigor e qualidade são o segredo. Estar sempre no mesmo nível.

A fachada requintada do Hôtel des Ormes (Foto: Divulgação)

A fachada requintada do Hôtel des Ormes (Foto: Divulgação)

Pela primeira vez você está vindo promover seus hotéis no Brasil. Como está sendo a recepção dos operadores e agências, e o que mudou nesse tipo de empresa desde que você saiu daqui?
Hoje, os operadores, que trabalham grandes mercados, têm produtos pré-determinados, porque os brasileiros, apesar de gostarem de ser livres, gostam de não perder tempo. É a linha de dicas. Em muitas dessas visitas que nós fizemos a operadores, nós saimos com programas feitos. Hoje os operadores querem saber, além de um hotel bacana, o que poderia ser o ponto para levar as pessoas até lá. Então a gente descobre o que a clientela gosta de fazer, desde pescaria até cursos de escultura, e adapta uma programação ao gosto. E isso antes os hoteleiros não faziam, nem as agências pediam.

O ambiente refinado do Hôtel des Isles (Foto: Divulgação)

O ambiente refinado do Hôtel des Isles (Foto: Divulgação)


Os agentes estão mais preocupados com os detalhes hoje?

Os agentes estão à procura de fazerem os seus clientes se sentirem bem. E eu acho que nós temos os produtos para uma seleção de brasileiros se sentirem bem. O luxo também é não ser incomodado. Eu recebo artistas brasileiros famosos que me pedem pra eu não utilizar o nome deles justamente porque eles gostam de ir pra lá e não serem reconhecidos. A gente recebe artistas famosíssimos na França que também gostam de ir pra lá justamente porque não precisam de guarda-costas, não tem jornalistas, não tem fotógrafos, não tem nada.

Se os seus hotéis são tão exclusivos como você diz, por que os preços são mais baixos do que o produto similar brasileiro?

Na realidade, os preços para o mercado francês são normais já no limite do elevado. Os preços no Brasil estão completamente desproporcionais, completamente desmesurados, muito caros. O nosso hotel, se estivesse em Gramado, custaria R$ 600, mas na França, se ele custar mais de R$ 250 reais, ninguém vai. Mas é a economia que pede isso, o mercado no Brasil pode ter esses preços. A gente se tivesse um quarto a R$ 600 reais os hotéis estavam vazios. A gente não pode vender a esse preço. Isso acontece porque a moeda está forte, mas também porque o brasileiro mede o preço de outra maneira, acha bacana estar entre gente que pode pagar muito caro. Na França, o bacana é ir para um hotel, ser maravilhosamente atendido, comer bem e pagar pouco. Isso é bacana, é ser inteligente, não esbanjar.






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